INDIE- dia 5
Vou ser breve: as duas sessões de curtas metragens foram boas, bem equilibradas; o filme "Temporada de Caça", foi óptimo (estreia em breve, em Portugal). As salas mais pequenas (250 lugares) continuam a esgotar amiúde e a EGEAC continua a não tratar do ar condicionado.
Ah: e, pela primeira vez em Portugal, um catálogo de Festival (onde estão as fichas técnicas, sinopses...) esgotou e estão a imprimir a 2ª edição. Um sucesso editorial que assevero não ser, de todo, light...
Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
28 de setembro de 2004
PATH
Há pessoas que carregam a solidão dentro de si. Como uma segunda natureza. Como se o mundo fosse uma arca de noé, com todas as espécies aos pares e eles se segurassem sozinhos à amurada, enquanto as águas subiam e a nave balança. Não há nisto nada de especialmente trágico. Apenas outra forma de viver a sua condição.
É a estes que os tarólogos gostam de mostrar a carta "O Ermita".
Há pessoas que carregam a solidão dentro de si. Como uma segunda natureza. Como se o mundo fosse uma arca de noé, com todas as espécies aos pares e eles se segurassem sozinhos à amurada, enquanto as águas subiam e a nave balança. Não há nisto nada de especialmente trágico. Apenas outra forma de viver a sua condição.
É a estes que os tarólogos gostam de mostrar a carta "O Ermita".
INDIE- dia 4
Estou a resistir. Quatro dias enfiado nas cadeiras do S. Jorge. Acho até que me estou a habituar à temperatura das salas. Como se vivesse sobre o Equador... Adiante.
O sucesso do festival, não sendo inesperado, está a ultrapassar todas as expectativas. Milhares de espectadores assistiram aos 4 dias de exibições, atingindo números que estão a fazer cair de cu, a rapaziada da Câmara de Lisboa: os mesmos que recusaram à Zero em Comportamento, uma das salas pequenas onde fosse possível ter uma programação regular de cinema independente... Enfim, pela falta de neurónios morrerá o peixe.
Ontem foi dia da segunda (e última) exibição das aventuras da IRON PUSSY, um disparate fílmico do impronunciável Apichatpong Weerasethakul em colaboração com Michael Shaowanasai e do CZECH DREAM (até ao momento, o principal candidato a Prémio do Público) Não consegui ver este último, mas a reacção geral foi a melhor. Quanto às peripécias da agente transexual Iron Pussy ( o nome diz tudo) foi um fartote de riso. Julgo que a maioria dos espectadores (a sala estava praticamente esgotada, pela segunda vez) também. Houve quem odiasse, claro. É um daqueles filmes que se presta a isso.
O BREAKING NEWS também juntou mais de 300 espectadores (número a olho). Um policial bem construído, para apreciadores do género.
Falhei o LISBOETAS, documentário de Sérgio Trefaut, que espero ver em próxima apresentação.
Para quem ainda lá vai hoje, recomenda-se a Competição de Curtas 1, A TEMPORADA DE PATOS e (não vi...) o que parece ser um dos filmes mais bizarros do festival LE MONDE VIVANT
Estou a resistir. Quatro dias enfiado nas cadeiras do S. Jorge. Acho até que me estou a habituar à temperatura das salas. Como se vivesse sobre o Equador... Adiante.
O sucesso do festival, não sendo inesperado, está a ultrapassar todas as expectativas. Milhares de espectadores assistiram aos 4 dias de exibições, atingindo números que estão a fazer cair de cu, a rapaziada da Câmara de Lisboa: os mesmos que recusaram à Zero em Comportamento, uma das salas pequenas onde fosse possível ter uma programação regular de cinema independente... Enfim, pela falta de neurónios morrerá o peixe.
Ontem foi dia da segunda (e última) exibição das aventuras da IRON PUSSY, um disparate fílmico do impronunciável Apichatpong Weerasethakul em colaboração com Michael Shaowanasai e do CZECH DREAM (até ao momento, o principal candidato a Prémio do Público) Não consegui ver este último, mas a reacção geral foi a melhor. Quanto às peripécias da agente transexual Iron Pussy ( o nome diz tudo) foi um fartote de riso. Julgo que a maioria dos espectadores (a sala estava praticamente esgotada, pela segunda vez) também. Houve quem odiasse, claro. É um daqueles filmes que se presta a isso.
O BREAKING NEWS também juntou mais de 300 espectadores (número a olho). Um policial bem construído, para apreciadores do género.
Falhei o LISBOETAS, documentário de Sérgio Trefaut, que espero ver em próxima apresentação.
Para quem ainda lá vai hoje, recomenda-se a Competição de Curtas 1, A TEMPORADA DE PATOS e (não vi...) o que parece ser um dos filmes mais bizarros do festival LE MONDE VIVANT
27 de setembro de 2004
INDIE-dia 3
Foi dia da argentina Lucrecia Martel, com a sua LA NINA SANTA. Não vou mentir, fiquei um pouco decepcionado, face a tanta expectativa. Claro que ela filma com uma sensibilidade muito interessante e que o filme arranca e termina bem... Mas o meio enrolou, enrolou... Enfim.
O pior foi o sistema de legendagem ter resolvido armar-se em caprichoso. Perante uma audiência de mais de 500 pessoas (sim, leram bem, a sessão ultrapassou os 500 espectadores), decidiu que não lhe apetecia. A organização parou o filme, pediu desculpas e tratou do problema. Perante uma ou duas pessoas irritadas (provavelmente habituadas à eficiência mecânica dos cineminhas da Lusomundo - tipo queca semanal: não falha, mas não deixa saudades) seguiram a segunda hipótese proposta e reaveram os preciosos 2 ou 3 euros do bilhete. Estavam no seu direito.
Melhor foi a selecção de curtas que passaram em Sundance. Com destaque para o último filme, GOWANUS, BROOKLIN, uma incursão nos subúrbios novaiorquinos, com óptimas interpretações.
Também à volta da comunidade negra (afro-americana, como é politicamente correcto afirmar-se), foi o filme da tarde, premiado em Sundance. Bem construído, sem grande arrojo. E um pouco panfletário para o meu gosto, na sua insistência em nos mostrar a chatice que é ser gay, negro e artista para aqueles lados. A gente já tinha percebido... Não era preciso fazer mais um filme sobre o tema. Digo eu.
Amanhã é o dia das curtas não competitivas, esse sim, a não perder. E para quem gosta de filmes de acção total, em ambiência "manga" (grosso modo, já que o filme é de Hong Kong), passa o BREAKING NEWS, do JohnnieTo. Ah, e já me esquecia, um filme de produção portuguesa (realizador brasileiro) LISBOETAS, de Sérgio Trefaut.
Foi dia da argentina Lucrecia Martel, com a sua LA NINA SANTA. Não vou mentir, fiquei um pouco decepcionado, face a tanta expectativa. Claro que ela filma com uma sensibilidade muito interessante e que o filme arranca e termina bem... Mas o meio enrolou, enrolou... Enfim.
O pior foi o sistema de legendagem ter resolvido armar-se em caprichoso. Perante uma audiência de mais de 500 pessoas (sim, leram bem, a sessão ultrapassou os 500 espectadores), decidiu que não lhe apetecia. A organização parou o filme, pediu desculpas e tratou do problema. Perante uma ou duas pessoas irritadas (provavelmente habituadas à eficiência mecânica dos cineminhas da Lusomundo - tipo queca semanal: não falha, mas não deixa saudades) seguiram a segunda hipótese proposta e reaveram os preciosos 2 ou 3 euros do bilhete. Estavam no seu direito.
Melhor foi a selecção de curtas que passaram em Sundance. Com destaque para o último filme, GOWANUS, BROOKLIN, uma incursão nos subúrbios novaiorquinos, com óptimas interpretações.
Também à volta da comunidade negra (afro-americana, como é politicamente correcto afirmar-se), foi o filme da tarde, premiado em Sundance. Bem construído, sem grande arrojo. E um pouco panfletário para o meu gosto, na sua insistência em nos mostrar a chatice que é ser gay, negro e artista para aqueles lados. A gente já tinha percebido... Não era preciso fazer mais um filme sobre o tema. Digo eu.
Amanhã é o dia das curtas não competitivas, esse sim, a não perder. E para quem gosta de filmes de acção total, em ambiência "manga" (grosso modo, já que o filme é de Hong Kong), passa o BREAKING NEWS, do JohnnieTo. Ah, e já me esquecia, um filme de produção portuguesa (realizador brasileiro) LISBOETAS, de Sérgio Trefaut.
A SUÍÇA UBER ALLE
"Os eleitores suíços rejeitaram hoje a facilitação do processo de naturalização de imigrantes de segunda e terceira geração, depois de uma intensa campanha nas vésperas do voto, que diversos partidos e organização denunciaram como racista e xenófoba.Cinquenta e dois por cento dos eleitores suíços rejeitaram uma primeira proposta de legislação que dava cidadania automática a estrangeiros de terceira geração nascidos na Suíça, isto é filhos de pessoas nascidas no país ou netos de imigrantes residentes na Suíça há muito. Uma segunda proposta, que pretendia facilitar o acesso à cidadania para a segunda geração, foi rejeitada por uma maioria ainda maior: 57 por cento." (in "Público").
Só quem não conhece de perto este pequeno país, com os seus agricultores altamente subsidiados e protegidos (não só os preços dos produtos agrícolas são absurdos, como é proibido ir a um dos países do lado e fazer compras à vontade, só para dar um exemplo), as velhas denunciantes atrás dos cortinados das janelas e a opinião generalizada de que os estrangeiros não são "propres" (limpos/correctos"), é que pode ficar admirado.
Este grupo de lavradores, enriquecidos com a desgraça da segunda guerra mundial e com os biliões e biliões de dólares sujos depositados nos seus bancos, acabará sozinho. Uma espécie de aldeia gaulesa, mas muito envelhecida...
"Os eleitores suíços rejeitaram hoje a facilitação do processo de naturalização de imigrantes de segunda e terceira geração, depois de uma intensa campanha nas vésperas do voto, que diversos partidos e organização denunciaram como racista e xenófoba.Cinquenta e dois por cento dos eleitores suíços rejeitaram uma primeira proposta de legislação que dava cidadania automática a estrangeiros de terceira geração nascidos na Suíça, isto é filhos de pessoas nascidas no país ou netos de imigrantes residentes na Suíça há muito. Uma segunda proposta, que pretendia facilitar o acesso à cidadania para a segunda geração, foi rejeitada por uma maioria ainda maior: 57 por cento." (in "Público").
Só quem não conhece de perto este pequeno país, com os seus agricultores altamente subsidiados e protegidos (não só os preços dos produtos agrícolas são absurdos, como é proibido ir a um dos países do lado e fazer compras à vontade, só para dar um exemplo), as velhas denunciantes atrás dos cortinados das janelas e a opinião generalizada de que os estrangeiros não são "propres" (limpos/correctos"), é que pode ficar admirado.
Este grupo de lavradores, enriquecidos com a desgraça da segunda guerra mundial e com os biliões e biliões de dólares sujos depositados nos seus bancos, acabará sozinho. Uma espécie de aldeia gaulesa, mas muito envelhecida...
26 de setembro de 2004
INDIE - DIAS 1 E 2
Lotação esgotada para a abertura, como se (eu) esperava. 24 antes, já não restavam bilhetes para o BEFORE SUNSET. Lá nos abanámos com leques ou com o que se apanhou a jeito (já lá irei ao assunto...) enquanto assistíamos ao comovente reencontro das duas personagens, em Paris.
Um filme romântico mesmo para quem não gosta de romantismos. Uma película que parece feita de simplicidade: planos sequência, dos dois nas ruas de Paris, diálogo constante, ausência de grandes acções... E contudo, somos tocados. E contudo, criamos empatia total com os protagonistas. A recomendar, aos corações sensíveis, assim que estrear em sala ;)
Hoje, assisti ao FOG OF WAR, um documentário americano, bem escrito, bem realizado e, sobretudo, montado de forma hábil. Através da entrevista ao antigo Secretário da Defesa (que conduziu o processo de guerra durante o final da 2ª Guerra Mundial, crise dos mísseis de Cuba e Vietname) percebemos melhor o que leva os homens à guerra. E, também, que alguns deles o podem fazer sabendo que não há nada de mais errado do que um homem matar outro.
Como não tive pachorra para o filme francês (creio) OR MON TRESOR - e bem, a julgar pelo enfado de alguns dos espectadores apanhados em falso), pude pensar com calma se queria ver o filme O ALBINO (que estreará em Setembro) ou o super-comentado em Cannes TARNATION. Optei por este último. Sala totalmente esgotada, de novo.
Resumidamente, trata-se de um interessante filme, feito a partir dos auto-registos (em vídeo, super 8...) do realizador. Ao contrário do que a sinopse sugeria não me pareceu um filme "sobre a mãe". Antes um exercício virtuoso de um Narciso. Mas que exercício...!
Custou perto de 200 dólares, montado num Macintosh caseiro...
A quem servir a lição, que a aprenda.
Amanhã há mais.
Lotação esgotada para a abertura, como se (eu) esperava. 24 antes, já não restavam bilhetes para o BEFORE SUNSET. Lá nos abanámos com leques ou com o que se apanhou a jeito (já lá irei ao assunto...) enquanto assistíamos ao comovente reencontro das duas personagens, em Paris.
Um filme romântico mesmo para quem não gosta de romantismos. Uma película que parece feita de simplicidade: planos sequência, dos dois nas ruas de Paris, diálogo constante, ausência de grandes acções... E contudo, somos tocados. E contudo, criamos empatia total com os protagonistas. A recomendar, aos corações sensíveis, assim que estrear em sala ;)
Hoje, assisti ao FOG OF WAR, um documentário americano, bem escrito, bem realizado e, sobretudo, montado de forma hábil. Através da entrevista ao antigo Secretário da Defesa (que conduziu o processo de guerra durante o final da 2ª Guerra Mundial, crise dos mísseis de Cuba e Vietname) percebemos melhor o que leva os homens à guerra. E, também, que alguns deles o podem fazer sabendo que não há nada de mais errado do que um homem matar outro.
Como não tive pachorra para o filme francês (creio) OR MON TRESOR - e bem, a julgar pelo enfado de alguns dos espectadores apanhados em falso), pude pensar com calma se queria ver o filme O ALBINO (que estreará em Setembro) ou o super-comentado em Cannes TARNATION. Optei por este último. Sala totalmente esgotada, de novo.
Resumidamente, trata-se de um interessante filme, feito a partir dos auto-registos (em vídeo, super 8...) do realizador. Ao contrário do que a sinopse sugeria não me pareceu um filme "sobre a mãe". Antes um exercício virtuoso de um Narciso. Mas que exercício...!
Custou perto de 200 dólares, montado num Macintosh caseiro...
A quem servir a lição, que a aprenda.
Amanhã há mais.
O S.JORGE
Os organizadores do IndieLisboa vieram provar não só que Lisboa (e o país) necessitava de um festival internacional de cinema a sério, como era possível fazê-lo. Com trabalho, profissionalismo e uma competência aliada a um grande amor ao cinema.
Daí que se visse na cara dos funcionários de São Jorge uma motivação inesperada. Pela primeira vez (que eu me lembre) vi aqueles funcionários a darem o seu melhor e a trabalhar com gosto. Está bem que não viam espectadores há muito tempo e que salas quase sempre à cunha de gente interessada, também por ali já não havia memória. Mas ainda assim.
Claro que... quem por lá tem passado os últimos dias tem suado as estopinhas: literalmente. A EGEAC (a empresa que toma conta dos equipamentos culturais da cidade) tinha-se "esquecido" de que o sistema de ar condicionado estava avariado. "Há uns dias?", perguntei eu, ingénuo. Não HÁ MESES. "Como vai para obras, não valia a pena...".
Deixem-me pôr as coisas assim: ao aceitar festivais e mostras de cinema e a não lhe dar as condições mínimas (40 º dentro de uma sala é obra...) é o mesmo que eu convidar amigos para jantar em minha casa sem ter lavado a louça. "Como se vai sujar a seguir...".
Oh, valha-me Deus!
Os organizadores do IndieLisboa vieram provar não só que Lisboa (e o país) necessitava de um festival internacional de cinema a sério, como era possível fazê-lo. Com trabalho, profissionalismo e uma competência aliada a um grande amor ao cinema.
Daí que se visse na cara dos funcionários de São Jorge uma motivação inesperada. Pela primeira vez (que eu me lembre) vi aqueles funcionários a darem o seu melhor e a trabalhar com gosto. Está bem que não viam espectadores há muito tempo e que salas quase sempre à cunha de gente interessada, também por ali já não havia memória. Mas ainda assim.
Claro que... quem por lá tem passado os últimos dias tem suado as estopinhas: literalmente. A EGEAC (a empresa que toma conta dos equipamentos culturais da cidade) tinha-se "esquecido" de que o sistema de ar condicionado estava avariado. "Há uns dias?", perguntei eu, ingénuo. Não HÁ MESES. "Como vai para obras, não valia a pena...".
Deixem-me pôr as coisas assim: ao aceitar festivais e mostras de cinema e a não lhe dar as condições mínimas (40 º dentro de uma sala é obra...) é o mesmo que eu convidar amigos para jantar em minha casa sem ter lavado a louça. "Como se vai sujar a seguir...".
Oh, valha-me Deus!
23 de setembro de 2004
A NOSSA MENINA!
Ai que grande alegria: a nossa menina vai para administradora da Caixa Geral de Depósitos. Quem andou a dizer que a Celeste Cardona mereceria a coroa da Ministra Mais Estúpida do Mundo, deve estar neste momento a sentir-se constrangido. Será incompetente, pois será. Não percebe um boi de actividade bancária, pois não percebe. Mas que diabo, não será ela um maravilhoso símbolo dos tempos em que vivemos? Premiar a inépcia e a estultícia não se tornaram obrigatórios, em 2004? Santana Lopes não chegou a primeiro-ministro e não se arrisca a chegar a Presidente da República, depois de esburacar Lisboa e delapidar o erário municipal?
Ora aí está: a nossa Celeste vive os seus (longos) 15 minutos de fama.
A dúvida consiste em saber quantos mira-amarais irá ela arrecadar por mês?!
ps: se quiserem saber o que mais irá acontecer em Portugal basta lerem a Bíblia, livro do Apocalipse: "Apareceu ainda outro sinal no céu:era um grande dragão de fogo com sete cabeças e dez chifres..." etc, etc....
Ai que grande alegria: a nossa menina vai para administradora da Caixa Geral de Depósitos. Quem andou a dizer que a Celeste Cardona mereceria a coroa da Ministra Mais Estúpida do Mundo, deve estar neste momento a sentir-se constrangido. Será incompetente, pois será. Não percebe um boi de actividade bancária, pois não percebe. Mas que diabo, não será ela um maravilhoso símbolo dos tempos em que vivemos? Premiar a inépcia e a estultícia não se tornaram obrigatórios, em 2004? Santana Lopes não chegou a primeiro-ministro e não se arrisca a chegar a Presidente da República, depois de esburacar Lisboa e delapidar o erário municipal?
Ora aí está: a nossa Celeste vive os seus (longos) 15 minutos de fama.
A dúvida consiste em saber quantos mira-amarais irá ela arrecadar por mês?!
ps: se quiserem saber o que mais irá acontecer em Portugal basta lerem a Bíblia, livro do Apocalipse: "Apareceu ainda outro sinal no céu:era um grande dragão de fogo com sete cabeças e dez chifres..." etc, etc....
22 de setembro de 2004
A ÚLTIMA FRASE
Quantas vezes não daríamos tudo para não ter dito uma frase? A palavra-bicho que morde o outro com violência. Sai-nos a razão dos braços, porta fora, deixando-nos o embaraço de se ter ultrapassado a intenção inicial.
Eu não sei, por vocês, mas quanto mim gostava de me calar mais cedo. Tantas vezes...
Quantas vezes não daríamos tudo para não ter dito uma frase? A palavra-bicho que morde o outro com violência. Sai-nos a razão dos braços, porta fora, deixando-nos o embaraço de se ter ultrapassado a intenção inicial.
Eu não sei, por vocês, mas quanto mim gostava de me calar mais cedo. Tantas vezes...
21 de setembro de 2004
O FASCÍNIO DA PROSA
Um jovem poeta (rapaz simpático e de quem tenho aliás boa impressão) disse, há dias, numa entrevista, "estar fascinado pela prosa". E acrescentou que "tinha argumentos para vários romances".
Muitas páginas de experiência depois só posso usar a palavra "ingenuidade", sobre esta atitude. Achar que se "tem o argumento" (a ideia da coisa, depreendo eu...) é o mesmo que declarar ter conseguido que uma serpente faça o pino todas as noites. Isso simplesmente não acontecerá. "Aquilo" que um romance é, define-se muito tempo depois de se começar a escrever. Nem sequer basta conhecer todas as personagens, ou saber o que desejam elas fazer. A essência de um livro que não se queira livreco forma-se a seu belo prazer. Nem o nosso poeta, nem eu, controlaremos algum dia o processo.
ps: a este respeito recebi um post do referido autor (a quem envio um abraço), demonstrativo da sua postura séria, e esclarecendo o lado que mais me intrigara nas suas alegadas afirmações (adaptando o Pessoa, "entre o que se diz aos jornais e o que eles publicam... há uma diferença de verbo"). Não discorda na generalidade das minhas afirmações. Acrescento que seria interessante continuar esta discussão, por ser ela em muitos casos fruto de equívocos e desconsolos pós-publicação.
Um jovem poeta (rapaz simpático e de quem tenho aliás boa impressão) disse, há dias, numa entrevista, "estar fascinado pela prosa". E acrescentou que "tinha argumentos para vários romances".
Muitas páginas de experiência depois só posso usar a palavra "ingenuidade", sobre esta atitude. Achar que se "tem o argumento" (a ideia da coisa, depreendo eu...) é o mesmo que declarar ter conseguido que uma serpente faça o pino todas as noites. Isso simplesmente não acontecerá. "Aquilo" que um romance é, define-se muito tempo depois de se começar a escrever. Nem sequer basta conhecer todas as personagens, ou saber o que desejam elas fazer. A essência de um livro que não se queira livreco forma-se a seu belo prazer. Nem o nosso poeta, nem eu, controlaremos algum dia o processo.
ps: a este respeito recebi um post do referido autor (a quem envio um abraço), demonstrativo da sua postura séria, e esclarecendo o lado que mais me intrigara nas suas alegadas afirmações (adaptando o Pessoa, "entre o que se diz aos jornais e o que eles publicam... há uma diferença de verbo"). Não discorda na generalidade das minhas afirmações. Acrescento que seria interessante continuar esta discussão, por ser ela em muitos casos fruto de equívocos e desconsolos pós-publicação.
O MISTÉRIO DA MENINA DESAPARECIDA
A confirmar-se a notícia de ter sido a própria mãe a entregar a filha a um casal de alemães (nesta época de afirmações peremptórias e desmentidos, este post é capaz de deixar de fazer sentido daqui a uns minutos...), todos se vão atirar à mulher como cães. A população que procurou a criança em vão; a judiciária que fez aquilo para que é paga mas que embirra com gente que a engana; nós espectadores que ficamos com o coração apertado.
E, contudo, ao pensar nesta mãe carregada de filhos, arranjados e mantidos sabe deus como, consigo perceber o gesto. Se o gesto foi simples, claro, já que pouco se sabe do protesto. Cresci em meios em que era normal pais de famílias numerosas terem os filhos a crescer junto de "padrinhos", pessoas mais abastadas e sem filhos. É verdade que se seguiram muitos casos de toxicodependência e pequenez moral. Mas, lembro-me do misto de alívio e sofrimento pela separação desses pais. É capaz de ter sido uma coisa dessas, vamos a ver...
A confirmar-se a notícia de ter sido a própria mãe a entregar a filha a um casal de alemães (nesta época de afirmações peremptórias e desmentidos, este post é capaz de deixar de fazer sentido daqui a uns minutos...), todos se vão atirar à mulher como cães. A população que procurou a criança em vão; a judiciária que fez aquilo para que é paga mas que embirra com gente que a engana; nós espectadores que ficamos com o coração apertado.
E, contudo, ao pensar nesta mãe carregada de filhos, arranjados e mantidos sabe deus como, consigo perceber o gesto. Se o gesto foi simples, claro, já que pouco se sabe do protesto. Cresci em meios em que era normal pais de famílias numerosas terem os filhos a crescer junto de "padrinhos", pessoas mais abastadas e sem filhos. É verdade que se seguiram muitos casos de toxicodependência e pequenez moral. Mas, lembro-me do misto de alívio e sofrimento pela separação desses pais. É capaz de ter sido uma coisa dessas, vamos a ver...
20 de setembro de 2004
FILMES
Enquanto não chega a sexta-feira para darmos início ao visionamento intensivo de alguns dos melhores filmes produzidos no mundo, via INDIELISBOA (Cinema São Jorge) sempre nos vamos distraindo pelo cinema comercial. Atraído pelo "Sugerido de um livro de Asimov", fui ver o I ROBOT. De facto, era sugerido. De facto, o Will Smith é um actor... divertido. De facto, não foi uma má experiência, embora a milhas do talento do escritor que esteve na origem da história.
A melhor interpretação é, de facto, a do actor vestido de verde que dá vida ao robot 3D. Tal como em O SENHOR DOS ANÉIS, a "interpretação computorizada" abre um precedente na história do cinema. E, prova, ao contrário do tema do filme, que por detrás de uma máquina está sempre o talento do Homem.
Enquanto não chega a sexta-feira para darmos início ao visionamento intensivo de alguns dos melhores filmes produzidos no mundo, via INDIELISBOA (Cinema São Jorge) sempre nos vamos distraindo pelo cinema comercial. Atraído pelo "Sugerido de um livro de Asimov", fui ver o I ROBOT. De facto, era sugerido. De facto, o Will Smith é um actor... divertido. De facto, não foi uma má experiência, embora a milhas do talento do escritor que esteve na origem da história.
A melhor interpretação é, de facto, a do actor vestido de verde que dá vida ao robot 3D. Tal como em O SENHOR DOS ANÉIS, a "interpretação computorizada" abre um precedente na história do cinema. E, prova, ao contrário do tema do filme, que por detrás de uma máquina está sempre o talento do Homem.
ATLETISMO CULTURAL
Já tentaram escrever um romance denso de centenas de páginas aos bochechos, entre corridas para pôr o pão na mesa? É fascinante. O equivalente ao maratonista que treina para os jogos olímpicos, uma hora por dia, depois de despachar as declarações fiscais do irs durante 8 horas.
Mas, com o que se poupa nas bolsas de criação literária, durante um ano, sempre se pode pagar um mês de reforma aos miras amarais.
São as opções de um país que tem o que merece.
Já tentaram escrever um romance denso de centenas de páginas aos bochechos, entre corridas para pôr o pão na mesa? É fascinante. O equivalente ao maratonista que treina para os jogos olímpicos, uma hora por dia, depois de despachar as declarações fiscais do irs durante 8 horas.
Mas, com o que se poupa nas bolsas de criação literária, durante um ano, sempre se pode pagar um mês de reforma aos miras amarais.
São as opções de um país que tem o que merece.
17 de setembro de 2004
MAS A DIGNIDADE TEM PREÇO?!
É para mim um mistério o facto de ser pacificamente aceite que um secretário de Estado ou um ministro tenha de se deslocar de BMW para cima. E dentro destas marca e de outras só lhes serve o topo da gama. Nenhum pode chegar num Seat, ou num Citroën. Por causa da "dignidade".
Na verdade, acontecem aqui duas coisas: a) a cáfila usa os cargos para andar de cu tremido, como nunca tinha andado antes. b) assume-se que desde o tempo em que os bispos se vestiam de púrpura, os reis se cobriam de arminho e nossa-senhora de brocado e ouro que só assim é que o povo se verga e convence...
Não me parece que estejam totalmente enganados no último caso, helàs. Sempre dá outro efeito chegar de mercedão à festa na aldeia. Mas, admitindo a semi-legimitade da coisa (e sem sair do campo da demagogia total), falta a questão "onde é que vamos buscar os carros?".
Ora, lembrava-me, e bem, uma amiga minha que trabalhou na Alfândega vários anos, de que neste sítio se encontram parados, para leilão, centenas de carros de alta cilindrada, apreendidos por mil razões. Não poderiam estas viaturas ser colocadas à disposição dos nossos Rabinhos-de-veludo?
Claro que aí não haveria standes envolvidos.... Nem carros a irem parar por 10% às mãos de familiares directos dos referidos políticos.
Mas que diabo! sempre podem esperar pelo inevitável tacho administrativo que se seguirá à função governamental e, nessa altura, ser generoso com os primos e tias.
Digo eu...
QUANDO EU FOR GRANDE, QUERO UM POPÓ!
É para mim um mistério o facto de ser pacificamente aceite que um secretário de Estado ou um ministro tenha de se deslocar de BMW para cima. E dentro destas marca e de outras só lhes serve o topo da gama. Nenhum pode chegar num Seat, ou num Citroën. Por causa da "dignidade".
Na verdade, acontecem aqui duas coisas: a) a cáfila usa os cargos para andar de cu tremido, como nunca tinha andado antes. b) assume-se que desde o tempo em que os bispos se vestiam de púrpura, os reis se cobriam de arminho e nossa-senhora de brocado e ouro que só assim é que o povo se verga e convence...
Não me parece que estejam totalmente enganados no último caso, helàs. Sempre dá outro efeito chegar de mercedão à festa na aldeia. Mas, admitindo a semi-legimitade da coisa (e sem sair do campo da demagogia total), falta a questão "onde é que vamos buscar os carros?".
Ora, lembrava-me, e bem, uma amiga minha que trabalhou na Alfândega vários anos, de que neste sítio se encontram parados, para leilão, centenas de carros de alta cilindrada, apreendidos por mil razões. Não poderiam estas viaturas ser colocadas à disposição dos nossos Rabinhos-de-veludo?
Claro que aí não haveria standes envolvidos.... Nem carros a irem parar por 10% às mãos de familiares directos dos referidos políticos.
Mas que diabo! sempre podem esperar pelo inevitável tacho administrativo que se seguirá à função governamental e, nessa altura, ser generoso com os primos e tias.
Digo eu...
QUANDO EU FOR GRANDE, QUERO UM POPÓ!
16 de setembro de 2004
MIRA K GUAPO!
Consta que o ex-ministro Mira Amaral, vai para a reforma com a módica quantia mensal de 3600 contos. A causa desta soma (despachada em tempo recorde) deriva da sua meteórica passagem pela pública Caixa Geral de Depósitos.
Uma constatação que pode fazer salivar os milhares de reformados que vivem com menos de um salário mínimo, é só o que posso dizer.
Ainda dentro dos salários da (dis)Função Pública, respondeu o beato Bagão que "o ordenado médio é de 1800 euros" (10% da reforma acima referida, portanto). Não soubéssemos nós que o salário médio se calcula a partir da diferença entre um administrador de empresa pública (CP, GALP...) e um porteiro de câmara e acreditaríamos que a maioria vive folgadamente.
Consta que o ex-ministro Mira Amaral, vai para a reforma com a módica quantia mensal de 3600 contos. A causa desta soma (despachada em tempo recorde) deriva da sua meteórica passagem pela pública Caixa Geral de Depósitos.
Uma constatação que pode fazer salivar os milhares de reformados que vivem com menos de um salário mínimo, é só o que posso dizer.
Ainda dentro dos salários da (dis)Função Pública, respondeu o beato Bagão que "o ordenado médio é de 1800 euros" (10% da reforma acima referida, portanto). Não soubéssemos nós que o salário médio se calcula a partir da diferença entre um administrador de empresa pública (CP, GALP...) e um porteiro de câmara e acreditaríamos que a maioria vive folgadamente.
15 de setembro de 2004
ESTOU
Passamos a vida com medo de perder isto ou aquilo. Medo do quê se a morte nos levará tudo? Por mais que nos esforcemos, nenhum de nós poderá guardar para sempre a beleza, a casa de sonho, a carreira brilhante, a admiração dos maiores...
O único medo que me parece legítimo é o de viver amedrontado.
Passamos a vida com medo de perder isto ou aquilo. Medo do quê se a morte nos levará tudo? Por mais que nos esforcemos, nenhum de nós poderá guardar para sempre a beleza, a casa de sonho, a carreira brilhante, a admiração dos maiores...
O único medo que me parece legítimo é o de viver amedrontado.
DEMOCRACIA MUSCULADA
Acabo de ouvir uma das mais fantásticas declarações dos últimos tempos. O (por assim dizer) ministro da justiça disse qualquer coisa como isto: "Queremos a concertação (a palavra era outra, de que me não recordo, com o mesmo sentido) com os parceiros sociais. Mas com ela, ou sem ela, vamos efectuar as reformas.".
Se alguém tiver o número do ministro faça o favor de lhe telefonar e dizer que há psiquiatras que fazem um trabalho excelente no campo do autismo.
Acabo de ouvir uma das mais fantásticas declarações dos últimos tempos. O (por assim dizer) ministro da justiça disse qualquer coisa como isto: "Queremos a concertação (a palavra era outra, de que me não recordo, com o mesmo sentido) com os parceiros sociais. Mas com ela, ou sem ela, vamos efectuar as reformas.".
Se alguém tiver o número do ministro faça o favor de lhe telefonar e dizer que há psiquiatras que fazem um trabalho excelente no campo do autismo.
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